6
maio
2019
0

Olhando a verdade na cara – O que está acontecendo com Game of Thrones?

got-capa

A primeira temporada de qualquer série é muito importante, pois é ali que se estabelece o código entre autor e espectador. No caso de Game of Thrones, o código estabelecido nos dizia que: não deveríamos nos apegar aos personagens, pois eles poderiam morrer a qualquer momento; não existia exatamente um protagonista na série; as mortes viriam secas, rápidas e consequentemente, surpreendentes; a série não era de fantasia, mas tinha elementos fantásticos inseridos em uma lógica realista; não existia romance, todos os casamentos terminavam de forma trágica; os deslocamentos geográficos dos personagens chegavam a durar temporadas, indo de um ponto a outro de Westeros. Esses foram os pontos mais importantes combinados. Quem seguiu assistindo é porque concordou e gostou.

Eis que a partir da quinta temporada esse código foi pouco a pouco sendo jogado fora e aquela série que fez a gente se apaixonar por sua ousadia deixou de ser ela mesma. O último episódio, terceiro da oitava e última temporada, só comprova isso. A batalha de Winterfell, a maior já produzida na série e na história da TV, criou uma expectativa altíssima nos fãs e o que tivemos? Poucas mortes de personagens relevantes. Se você está pensando “Ah mas e o Theon e o Jorah?”. Eram dois moribundos dramaturgicamente. Perderam o protagonismo das suas próprias histórias e apenas margeavam as histórias alheias. A prova disso é que a morte deles não gerou nenhuma consequência para a trama principal. Em outras temporadas teriam sido, inclusive, cortados antes que se chegasse a esse ponto e nunca, nunca mesmo, haveria toda aquela mise en scène para emocionar o espectador. Trilha sonora lenta, câmera em slow motion, últimas palavras… George R.R. Martin não deu esse privilégio a nenhum personagem. Tivemos que digerir mortes prematuras, radicais e sem nenhum tipo de preparação emocional durante todos esses anos.

Em compensação, a morte do Rei da Noite foi super fácil e simples. O grande vilão de Game of Thrones, cuja construção acompanhamos por anos, a real ameaça a Westeros, morreu sem falar nada, nenhuma explicação, com uma facada e pronto. Vida que segue em direção a King’s Landing para a batalha com a Rainha Cersei, que um dia também já foi uma Lady MacBeth e agora é só uma vilãzinha chapada a la Disney. Como os autores vão sair da cilada de fazer a guerra entre os vivos ser algo mais grandioso do que essa com um exército de mortos, não sabemos. E o porquê do Jon Snow ter sido ressuscitado se não foi ele quem matou o Rei da Noite, também não. Mas arrisco dizer que as suas quase sete vidas são obra de autores que querem muito que ele seja o protagonista. Essa proteção com o personagem, que já fez ele sobreviver a mil batalhas mesmo tomando as piores decisões, só joga contra o código da série. Estou me perguntando até agora como ele se safou daquele cerco de milhares de zumbis depois de tentar atacar o Night King pelas costas.

Ainda temos Jonerys, o casal mais shippado e chato de todos os Sete Reinos, a prova de que o seriado perdeu o rumo quando massificou e se deixou levar pelos desejos dos fãs. Não posso deixar de fazer um parênteses, porém, para o excelente diálogo entre Sansa e Tyrion na cripta, digno dos tempos dourados de GoT. Um casal improvável e inviável, legítimo filho das crônicas de gelo e fogo, que a gente secretamente torce pra que dê certo.

Entretanto, a grande decepção do episódio foi mesmo com a qualidade da imagem, o que comprometeu o entendimento da ação. The Long Night levou 55 dias para ser filmado e a HBO (com dois anos para organizar a exibição, diga-se de passagem) conseguiu entregar o trabalho de uma equipe enorme de técnicos, artistas e atores nas garras dos trolls da web. O descarte do código é generalizado, fazendo com que o episódio só tenha empolgado com as grande atuações das personagens femininas, como Arya, Melisandre, Brienne, Sansa e Lyanna Mormont. É chegada a hora de olharmos a verdade na cara, como sugeriu Sansa Stark a Tyrion Lannister: aquele Game of Thrones das quatro primeiras temporadas morreu, só restou o vício que nos faz querer mais uma dose com uma pontinha de esperança de que a próxima vai ser melhor como nos velhos tempos. Estamos claramente em um relacionamento abusivo com a série. Que Arya Stark acabe logo com esse sofrimento do fandom. Valar Morghulis.

You may also like

O que significa realmente Valar Morghulis?

Deixe um comentário