21
Feb
2016
0

O regresso

“Instant Karma’s gonna get you

Gonna knock you right on the head”

Esse trecho da música “Instant Karma” (karma imediato) de John Lennon seria suficiente como resumo conceitual do filme, mas por ser uma obra tão arrebatadora seria injusto ser redutiva assim. Começo confessando que errei. Errei ao pré-julgar Alejandro Iñárritu por anos. Adorei Amores Brutos, mas depois foi só decepção. Tudo parecia repetitivo, superficial, exagerado e pretensioso. Faltou paciência e entendimento de que não nascemos prontos para nada. Queria respostas, conclusões e não percebia que estava tendo a sorte de poder acompanhar a evolução de um artista. Foi preciso realizar, realizar e realizar para Iñárritu aperfeiçoar sua maneira de contar história e sua visão de mundo através dela. O Regresso fecha esse ciclo de modo brilhante.

Quem também errou foi o protagonista Hugh Glass, interpretado por Leonardo DiCaprio. Não pensem que por ele ter um filho mestiço e querer vingar a sua morte significa que estivesse certo ou fosse uma espécie de herói. Errou por, mesmo tendo uma família nativa, não ter aprendido sobre o primordial da cultura deles: o respeito aos seres vivos e à vida em comunidade. Continuava a agir como o homem branco que era, caçando animais para fins mercantilistas. Mas já dizia o ditado “aqui se faz, aqui se paga”. Um dia temos sorte, no outro sai uma carta de revés e somos obrigados a voltar muitas casas no jogo da vida. De caçador, Glass passa a ser a caça. Sua esposa falecida aparecia em seus sonhos tentando fazê-lo enxergar algo maior, mas a sua ignorância o cegava.

Se seus antepassados europeus e companheiros de trabalho não tivessem dizimado os povos locais, essa sabedoria primitiva indígena não teria se perdido. Esse elo do homem com a natureza se dissolveu no meio do caminho dando lugar ao capitalismo selvagem e ao niilismo, representado perfeitamente pelo personagem Fitzgerald de Tom Hardy. O protagonista é uma vítima de si mesmo, de seus atos e precisou regressar às origens do homem enquanto animal, reaprendendo o básico, para tomar consciência disso tudo. Acompanhamos a sua via crúcis. Hugh volta para estaca zero sem conseguir andar, debilitado fisicamente, sem arma, comida ou fogo. Em uma cena certeira, ele observa veados atravessando um rio e imagina o que faria se estivesse armado. Mataria para comer, porém a vida lhe tirou tudo e só restava se alimentar do que lhe fosse dado.

Nesse ponto entra uma figura importante na jornada de autoconhecimento do personagem: o índio que lhe dá o fígado de um bisão para comer. Ele o alerta que o seu desejo de vingança o contamina com ódio e raiva, afirmando que “seu corpo está podre”. E estava fisica e metafísicamente. O mais interessante na forma como Iñarritu mostra essa relação de causa e efeito é que a cada vez que o protagonista avança um passo em direção ao seu plano, a natureza lhe dá uma rasteira de alguma forma, seja através da perseguição pelos índios Arikaras ou pela avalanche, por exemplo. Porém, sempre oferecendo mais uma chance para ele escolher o rumo certo.

Aqueles belos planos gerais que permeiam o longa não estão ali por maneirismo do diretor e sim para nos lembrar o quanto somos pequenos perto da grandiosidade do planeta, mas que também somos parte dele. Alternando esses takes, Iñárritu entrega closes e planos detalhes de Hugh Glass, um homem que só enxerga a si mesmo e precisou passar por tudo que passou para que a ficha caísse no final.

Se o título do filme tivesse sido traduzido corretamente a ficha do espectador também cairia mais rápido. The Revenant significa “o renascido”. A experiência de renascimento do protagonista, inclusive, se assemelha a de Cristo. Não à toa, a caracterização de Leo vai ficando cada vez mais parecida com a de Jesus, tendo seu ápice na cena em que entra nu e ensanguentado dentro do corpo do cavalo. Esse sincretismo da religião católica com a mística indígena é típico dos latinos. A mistura de crenças e de culturas enriquece o filme o levando para um patamar transcendental. Talvez fosse isso que faltava na jornada pessoal de DiCaprio para ele conquistar o Oscar que com certeza vai levar. Não a provação física, mas o que ela provoca no ego de um ator. Um lembrete da vida dizendo “Jack Dawson, você não é o rei do mundo”.

O Regresso é uma obra essencial por nos lembrar que os problemas que julgamos atuais começaram lá atrás e esse modelo antropocêntrico tem que ser freado. Não há mais tempo para deixar que o interesse econômico se sobreponha a tudo. A estreia do filme nesse momento está totalmente em sintonia com a crise do capitalismo atual. Somos todos Hugh Glass de uma maneira ou de outra. Enquanto não tomarmos consciência de nossos próprios atos continuaremos a repetir os mesmos erros. O maior sintoma de que ainda vivemos nessa Era de Trevas é a própria cegueira do público que só consegue enxergar no filme uma saga de vingança. Não é Tarantino, é Iñárritu. É um mexicano, um latino-americano, um colonizado. Isso faz toda a diferença na hora de contar a história.

Se ele não for sabotado como foi James Cameron no ano que botou o dedo na ferida do Tio Sam com Avatar, a premiação máxima da indústria cinematográfica hollywoodiana vai ser dele. Querendo ou não, a academia está tendo que lidar com essa realidade em transformação. Filme denunciando a rede de pedofilia da Igreja Católica, filme denunciando a corrupção da elite financeira, filme sobre imigrante, filme feminista… E ainda teve o boicote dos artistas negros à festa que culminou com novas medidas para aumentar a representativade deles na premiação. Se tudo der certo, será o segundo ano consecutivo que o mesmo representante de uma minoria vai botar a mão num Oscar. Nunca imaginei que um dia diria isso: Obrigada, Iñárritu!

Ficha Técnica

Diretor: Alejandro Iñarritú

Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Pouter

Gênero: Drama

Produção: EUA

Duração: 156 min

You may also like

O que significa realmente Valar Morghulis?
A grande aposta
Reações facebookianas aos filmes do Oscar
Apostas para o Festival do Rio 2014

1 Response

  1. Ciro Barcelos

    Comentário inteligente sobre um filme extraordinário e enigmático, que aos olhos de maioria, passará apenas por mais uma pelicula de perseguição vingativa. Parabéns!

Leave a Reply