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Dec
2012
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E agora, aonde vamos?

Em determinada cena, o Padre diz: “perdoe-os, pois eles não sabem o que fazem”. O Imam responde: “e nós, por acaso, sabemos?”. Esse diálogo é uma síntese de E agora, aonde vamos? e de anos de desavenças religiosas no Oriente Médio. A cineasta libanesa Nadine Labaki, diferentemente dos personagens de seu novo filme, sabe muito bem o que faz. Em seu longa de estréia, Caramelo, já mostrava destreza e sensibilidade para contar histórias sob um olhar diferenciado. Nessa segunda produção, ela confirma tais qualidades.

O filme nos apresenta uma aldeia perdida no meio do nada, em algum lugar árido no Oriente Médio. Devido ao isolamento social, cristãos e muçulmanos que habitam a região conseguem conviver em paz, porém sempre no limiar de um conflito que no passado recente matara muitos de seus familiares. Até o dia em que uma televisão chega no local trazendo um pouco de entretenimento para a rotina rural da comunidade e… Notícias sobre o panorama bélico mundial! A trégua é abalada, fazendo com que as mulheres se juntem, deixando as diferenças de lado em prol da restauração da tranquilidade. Labaki consegue abordar a delicada questão da intolerância religiosa alternando doses de drama com outras de humor, compensando, dessa forma, a inevitável carga dramática intrínseca ao tema com a leveza de situações cômicas e números musicais, porém sem cair na frivolidade. Trata-se de um eficiente e criativo roteiro narrativo clássico que surpreende a cada virada e reserva uma solução final original. Além disso, boas atuações foram extraídas do elenco inacreditavelmente amador, reais moradores da região que serviu de locação.

Como em Caramelo, as mulheres são as protagonistas, ou melhor, o universo feminino dentro daquela realidade é o verdadeiro protagonista. Quem são essas mães, filhas e irmãs destinadas a vestir luto para enterrar seus entes queridos? Qual o papel que lhes cabe? A abordagem feminista transcende o fator sócio-político, adentrando um território mais antropológico a partir da dualidade masculino/feminino estabelecida em vários âmbitos durante todo o percurso. A natureza ancestral pacificadora, emotiva, passiva e agregadora da mulher está ali declarada, contrapondo a masculina, ativa, racional e guerreira. Entretanto, enquanto os homens da aldeia perdem a razão ao se deixarem tomar pelo impulso da emoção, se tornando inconscientemente passivos, as mulheres traçam estratégicas e os manipulam sem nunca sair de sua passividade programada. A exposição dessas duas forças de naturezas opostas, porém complementares e necessárias para a manutenção do equilíbrio dentro daquele microcosmo que é a aldeia, estabelece uma relação yin-yang, o que juntamente com a narração de abertura, o fechamento do filme e os números musicais afirmam o caráter mítico da história. Números musicais? Sim, números musicais. No princípio é normal o estranhamento, mas depois a sua função de alicerce do humor e referência ritualística, porém com roupagem moderna, fica mais evidente.

A conexão mito-religião-gêneros oferece uma base jungiana ao filme, pois privilegia a concepção de religião enquanto experiência individual ligada à união em detrimento das tradições. Essa simbologia fica explícita em uma cena, em que uma das personagens muçulmanas perde o véu que cobre sua cabeça durante a viagem de moto. No primeiro momento ela se assusta, olha para a companheira cristã buscando apoio e em seguida riem juntas. Do mesmo modo, Nadine Labaki também se despiu do seu véu quando optou por ser cineasta num ambiente hostil e ainda por cima mexendo nesse vespeiro. E agora, aonde vamos? cabe perfeitamente como entretenimento sem deixar as discussões essenciais do seu povo de lado.

 

Ficha Técnica

Diretor: Nadine Labaki

Elenco: Nadine Labaki, Claude Baz Moussawbaa, Leyla Hakim…

Pais: França

Gênero: dramédia

Duração: 110 min

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