17
Jan
2012
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Festival do Rio 2011 – We need to talk about Kevin #pocket

     Certamente um dos filmes mais aguardados do Festival e mais comentados no pós-Festival. O longa da cineasta Lynne Ramsay é baseado no best seller homônimo da escritora Lionel Shriver, que mostra da perspectiva da mãe, um assassino adolescente que realiza um massacre em sua escola. Já entendeu o porquê do buchicho, certo? Tema polêmico e abordagem idem.

    É curioso que tanto o livro, quanto o filme apesar de terem sido realizados por mulheres, possuam uma visão tão cruel à respeito da mãe. A trama se constrói em cima de uma visão fortemente determinista e freudiana, na qual Kevin, o filho, teria se tornado um criminoso devido a rejeição materna surgida já no momento de sua concepção. Da mesma forma que, quando criança, ele usou fraldas até uma idade avançada como um modo de chamar atenção e ao mesmo tempo punir sua progenitora, quando adolescente isso toma proporções maiores, chegando ao ápice de matar seus colegas. Segundo o longa, Kevin foi levado a tomar essa atitude extrema impulsionado pela carência enorme que sentia, proveniente da relação conturbada com a mãe. O problema dessa teoria é o seu reducionismo, que comprime as diversas variáveis desse caso complexo em uma justificativa simplista baseada na equação da causa e efeito. Se usa lógica para explicar o ilógico. Acima de tudo seria necessário uma pré-disposição no personagem para a psicopatia e esse lado da moeda não é explorado no filme, que se concentra excessivamente na relação maternal.

    Assistimos Kevin ser demonizado através de relances do ator Ezra Miller dignos de filme de terror. Até o modelo do seu carrinho de bebê faz referência a filmes como A profecia. Entretanto, a trilha sonora toda composta por músicas country corta o clima de suspense, reforçado também pela montagem intercalada, variando entre passado, presente e sonhos, na verdade pesadelos. Paralelamente a cor vermelha invade a tela, mas não em detalhes como o verde de Grandes Esperanças. Ela está na festa do tomate, na tinta na porta da casa, na geléia, na prateleira de extrato de tomate no supermercado… Vermelho que transborda e que abre o filme logo na primeira cena, sempre com destaque. Uma gordurinha ilustrativa também aparece em planos como o do alvo refletido nos olhos de Kevin e a imagem da ultrassonografia, o que tira o filme dos trilhos da trama.

    Outras produções como  Tiros em Columbine de Michael Moore e Elefante de Gus Van Sant exploraram esse mesmo tema de forma mais imparcial. O primeiro tentou investigar as causas sem chegar a uma conclusão taxativa e o segundo optou por não teorizar sobre, apenas contando uma história sem causas, efeitos e julgamentos.

   Precisamos falar sobre o Kevin é eficiente ao mostrar a falência da estrutura familiar nos dias de hoje através do abismo existente entre cada integrante, que o isola em seu mundo particular. Eva e Kevin são duas pessoas inadequadas dentro do comercial de Doriana que o pai tentava construir. Essa inadequação fica visível no quarto-refúgio dela e nas roupas apertadas e curtas da fase de criança usadas por ele. Os espaços vazios são cenograficamente bem trabalhados, reforçando a idéia da falta de algo, seja de amor, diálogo, felicidade ou o que for. O grande destaque é a interpretação perfeita de Tilda Swinton, que não deixa a protagonista Eva cair no melodrama barato ao estabelecer um mix de culpa, tristeza, secura e solidão de modo suave, embora contundente. Grande candidata ao Oscar, podem escrever.

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