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15
Jun
2011
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Foi apenas um sonho

O vazio sem esperança

     Sabe aqueles dias em que acordamos e percebemos de repente, como em um estalo, que nos transformamos em tudo aquilo que mais odiamos? Nos sentimos hipócritas e traidores de nós mesmos. E paramos para pensar como foi que chegamos ali. April Wheeler (Kate Winslet) levou sete anos para ter seu momento de epifania e acordar. Ela, uma jovem atriz cheia de ideais e sonhos, se viu em uma vida no subúrbio americano, cuidando dos filhos e da casa enquanto o marido, que até certo ponto compactuava das mesmas idéias, trabalhava fora. O que no início parecia um conto de fadas virou um pesadelo.

     Foi apenas um sonho do oscarizado diretor Sam Mendes discorre sobre a incompatibilidade de perspectivas e desejos individuais dentro de uma relação, o que pode levá-la à ruína. Como já havia feito em Beleza americana, o cineasta discute essas questões a partir do contexto da vida nos subúrbios norte-americanos e o excesso de valores que lhe vem embutido. April e Frank (Leonardo Dicaprio) viam aquela situação na qual se encontravam como um estágio provisório, enquanto criavam seus filhos pequenos. Acreditavam serem muito diferentes daqueles que o circundavam, muito superiores. Porém estavam tão presos naquele vazio sem esperança quanto seus excessivamente simpáticos vizinhos, como observa John Givings (Michael Shannon), o matemático psicótico.

     A esse personagem dedico atenção especial. Ele é o contraponto, o louco, o gauche, o desviado. O filme aborda uma visão muito presente na década de 50 em relação ao conceito de loucura. Givings, pelo que mostra a história, era um matemático brilhante que foi mandado para um hospício por ter um caso claro de depressão. Mas como ele mesmo diz, os choques elétricos afugentaram a matemática e não seus problemas emocionais. Qualquer pessoa que tivesse um comportamento fora do dito padrão de normalidade e que, por isso, se constituía como um perigo social, era rotulado como louco e enviado a esse tipo de instituição da onde em geral, saiam pior do que haviam entrado. Sua função é verbalizar o que de fato está se passando nas entrelinhas, já que possui o respaldo necessário para tal. Entretanto, ele não é um personagem indispensável para o entendimento da narrativa. Faltou, inclusive, um pouco mais de sutileza na sua composição.

     O filme peca pelo excesso em alguns momentos. Há uma certa hiperbolização típica da indústria, tanto em termos de atuação, quanto de roteiro que culmina quase sempre em finais apoteóticos (e este não poderia ser diferente). Mas apesar dessa observação, podemos afirmar que as atuações são boas e o Oscar realmente fica com Kate Winslet, que convenhamos merecia a estatueta dourada por este papel, uma April sim, sutil em sua inquietude. Leo poderia estar mais suave. O roteiro é adaptado do romance homônimo de Richard Yates e é todo calcado em bons diálogos.

Ficha Técnica

Diretor: Sam Mendes

Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Michael Shannon…

Gênero: Drama

Produção: USA / Reino Unido

Duração: 119 min

Publicado originalmente em 01 de março de 2009.

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