18
maio
2011
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Vermelho como o céu

Se a vida te der um gravador, faça um filme!

O filme italiano Vermelho como o céu leva a sério o ditado “se a vida te der um limão, faça uma limonada”. Melhor ainda, na variação do ditado que diz: “se a vida te der um limão, faça uma caipirinha”. Ou seja, use a criatividade a seu favor nas horas difíceis. Isso porque durante uma hora e meia vemos como Mirco, menino de dez anos que se acidenta ao brincar com uma arma, ficando parcialmente cego, busca uma saída inteligente e criativa para amenizar o sofrimento consequente da nova situação em que se encontra. Munido de um gravador velho achado no porão de sua nova escola para deficientes visuais, o menino, um cinéfilo de carteirinha, começa a elaborar “filmes sonoros”, improvisando sons conhecidos para compor as histórias que cria.

O ponto alto é exatamente a forma como o problema do protagonista é tratado, optando por um caminho mais leve ao enfocar na maneira como o italianinho retirou força de sua deficiência, driblando com firmeza os obstáculos que apareciam na sua frente. Fica discrepante o modo como as crianças têm a capacidade de se adaptar rápido a diferentes situações, enquanto os adultos tendem a resistir perante as peças que a vida lhes prega, como era o caso do diretor do internato, também deficiente.

Não se pode esquecer que o filme é baseado em fatos reais. Mirco Mencacci é um personagem verídico e hoje, é um dos maiores editores de som do cinema italiano. Outro fato interessante de se observar é como a arte exerce um papel fundamental e necessário em nossas vidas, como atividade estimulante e reveladora. Para aqueles que acreditam que cinema é apenas lazer ou que quadros só servem para enfeitar paredes, está aí uma boa resposta. O protagonista, inclusive, tem que lutar para garantir sua liberdade de expressão dentro de sua nova escola, um símbolo de conservadorismo e rigidez da Itália dos anos 70, que podava as possibilidades dos meninos de levarem uma vida normal.

Outro exemplo real de como é possível viver normalmente com uma deficiência é o caso dos atores mirins que são, em sua maioria, cegos de verdade. O diretor Cristiano Bortone merece aplausos pela iniciativa e por conseguir arrancar ótimas atuações deles, não pela condição em que vivem, mas pelo fato de serem crianças, o que exige mais esforços em termos de concentração. Luca Capriotti que interpreta Mirco, o faz com toda sutileza e força exigida para compor o novo quadro com que seu personagem tem que aprender a lidar. Mas quem rouba a cena mesma é Simone Gullì, intérprete do fofinho e divertido Felici, seu companheiro de travessura, que arranca sinceras risadas da platéia.

A característica principal, que permeia o filme em todos os seus âmbitos é a simplicidade. Não há uma fotografia estonteante ou efeitos especiais. A edição de tão simples, chega às vezes a ser abrupta, deixando os cortes perceptíveis. Mas é essa simplicidade presente até na delicada comparação do título, que garante sua leveza. Vermelho como o céu não quer ganhar o Oscar, quer apenas contar uma história sincera. Por esse motivo esse bonito e singelo filme, que na realidade é uma homenagem ao cinema e a sua capacidade de nos permitir sonhar, consegue agradar de vovôs a netinhos.

Ficha Técnica

Diretor: Cristiano Bortone

Elenco: Luca Capriotti, Simone Gullì, Marco Cocci, Francesca Maturanza, Paolo Sassanelli…

Gênero: Drama

Produção: Itália

Duração: 96 min

Publicado originalmente em 01 de junho de 2007.

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