29
maio
2011
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Paranoid Park

No universo imagético de Gus Van Sant

     Alex é um skatista de 16 anos, que vive em Portland, Oregon, e um dia resolve conhecer mais de perto a perigosa e por isso, famosa pista de skate Paranoid Park, onde acidentalmente mata um segurança. Essa é a premissa do último filme do cineasta americano Gus Van Sant, baseado no livro homônimo de Blake Nelson, e que lhe rendeu uma indicação a Palma de Ouro e o prêmio pelo 60° aniversário do Festival de Cannes.

     Diferentemente do que se possa imaginar, o que interessa menos é o desenrolar da trama ou o destino final dos personagens. Conhecendo um pouquinho da filmografia recente do diretor americano, fica claro sua preferência pelo universo imagético, das formas e sensações em detrimento ao do conteúdo, diálogos e narrativa. Em uma espécie de Crime e Castigo contemporâneo, o cineasta foca seu olhar sob o sentimento de culpa, arrependimento e medo que assolam a cabeça de Alex. O mais interessante é observar o modo como Van Sant retrata a reação a esse quadro. Mesmo passando por uma ebulição mental, o protagonista não reage de nenhuma maneira, sua apatia é total. A cena em que Alex toma banho após o episódio trágico, sem áudio e em slow motion, é o ápice da representação desse retrato, por acaso uma das cenas mais sensoriais do longa.

     Gus Van Sant privilegiou em sua obra o enfoque sobre o complexo universo dos jovens de hoje. Chegou a trabalhar na indústria hollywoodiana e inclusive, foi indicado ao Oscar de melhor diretor por Um gênio indomável, filme que lançou Matt Damon e Ben Affleck ao estrelato. Mas foi no cenário independente que o cineasta ganhou prestígio. Com Elephant de 2003, levou a Palma de Ouro de melhor filme e melhor diretor em Cannes por seu retrato imperfeito do chocante episódio dos alunos de Columbine que entraram na escola atirando em seus colegas e professores. Com Last Days de 2005, chegou ao apogeu do experimentalismo ao compor uma livre visão dos últimos dias da vida de Kurt Cobain, antes do líder do Nirvana se suicidar. Paranoid Park não é nem experimental demais como este, nem brilhante como Elephant. Em comum todos possuem a apatia e o vazio existencial da juventude atual como assunto central, mas os usuais longos planos-sequência silenciosos estão mais curtos e há mais espaço para os diálogos.

     Nessa busca por entender a cabeça dos adolescentes, o diretor recrutou não atores para o filme, em sua maioria através de seu My Space, na tentativa de utilizar a espontaneidade e improviso natural daqueles que nunca atuaram e dessa forma, não estão presos a certos vícios. A estratégia surtiu efeito. As atuações estão no estilo de Gus. Outro ponto alto do filme é a trilha sonora, que muda repentinamente de gênero musical, como um shuffle de iPod, mostrando como a maioria dos usuários escuta o que está na moda, não tem um estilo musical preferido e zapeia pelas músicas sem ouví-las completamente. Síndromes da vida moderna que Van Sant sabe retratar muito bem.

Ficha Técnica

Diretor: Gus Van Sant

Elenco: Gabe Nevins, Daniel Liu, Taylor Momsen, Jake Miller, Lauren McKinney…

Gênero: Drama

Produção: EUA e França

Duração: 85 min

Publicado originalmente em 01 de fevereiro de 2008.

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