24
maio
2011
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O grande chefe

A fronteira entre realidade e ficção

Logo em uma das primeiras cenas de O grande chefe há uma câmera refletida na janela. Por um cinema mais realista e menos comercial, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier e seu Dogma 95 produzem filmes focados na dramaturgia, sem se preocupar com a questão estética e por isso, sem utilizar “muletas técnicas”. É terminantemente proibido usar luz artificial, recursos cenográficos e fotográficos, trilha sonora ou qualquer artifício externo a história, que possa provocar a falsa ilusão de realismo no espectador. Apesar disso, Lars interfere no filme em determinados momentos para fazer alguns comentários em off, como quem diz “Olá, não se esqueça de que isso é ficção!”. De qualquer modo, não há trilha, o som direto possui bastante ruído e foi utilizada uma câmera digital que faz enquadramentos de forma aleatória, o que mostra uma tentativa por parte do diretor de que sua subjetividade influencie o menos possível na obra, aproximando-a ao máximo do real e abrindo mais espaço para as interpretações.

A representação é, inclusive, a questão central que entremeia de diferentes formas toda sua filmografia. Seja em seu aclamado Dogville, na ausência de elementos cênicos que podam a reprodução da realidade, porém enaltecem a representação das questões humanas pelos atores, transformando o longa praticamente em teatro, ou neste O Grande Chefe, no qual um ator é contratado para fingir ser o dono de uma grande empresa de tecnologia de informação, durante as suas negociações de venda para encobrir medidas antiéticas. Só que conforme o protagonista vai entrando na brincadeira, começa a transformar o que e quem está a sua volta.

A relação do ator com o seu personagem gera boas risadas, apesar da frieza nórdica refletida na hegemonia de tons cinza e bege, e na economia de palavras. O humor é pesado, claro. O processo de construção do personagem do “chefe” pelo ator e o relacionamento com seu “diretor”/contratante, sempre movido a expectativas divergentes e levando a um conflito de egos, é uma metalinguagem do processo verdadeiro de criação de um filme. O grande chefe é mais um passeio de Lars pela fronteira entre a realidade e a ficção.

Ficha Técnica

Diretor: Lars Von Trier

Elenco: Jens Albinus, Peter Gantzler, Benedikt Erlingsson…

Gênero: Comédia

Produção: Dinamarca, Suécia, Islândia, Itália, França, Noruega, Finlândia, Alemanha e Espanha

Duração: 99 minutos

Publicado originalmente em 01 de outubro de 2007.

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