12
maio
2011
0

Amantes constantes

Crème de la crème du Cinema

Amantes constantes é para quem gosta mesmo de cinema. Se para você, filmão é feito em Hollywood com suas grandes produções, orçamentos milionários e atores ultra famosos, donos de atuações que beiram o exagero, então nem saia de casa. Ou melhor, saia sim! Vá ver esse filme e entender porque a sétima arte nasceu na França. A questão é a diferença entre enxergar o cinema como entretenimento e como arte.

A história se passa em maio de 68 em Paris, período conturbado em que os jovens, movidos a ideais esquerdistas e libertários, foram às ruas protestar contra os valores tradicionalistas da sociedade francesa e em defesa do proletariado. O filme começa mostrando a força dessa juventude, aparentemente muito politizada, para aos poucos desconstruir essa visão e revelar a ingenuidade, na qual estavam mergulhados. Apenas uma minoria realmente lutava por uma revolução. A maioria se situava à margem do problema, almejando no fundo viver de arte, amor e ópio patrocinado por algum amigo burguês. Compunham a famosa esquerda festiva. O tema não é dos mais originais. O cineasta italiano Bernardo Bertolucci, em 2004, já havia feito essa mesma abordagem no encantador Os sonhadores, que é inclusive mais dinâmico e cativante. Protagonizando ambos está o muso do Cinema cult Louis Garrel, filho do diretor.

Fica perceptível a influência de O acossado de Jean Luc Godard. As muitas seqüências passadas em ambiente fechado, sejam na casa ou no quarto, mostrando as íntimas relações humanas ali confinadas e a direção de arte e fotografia (premiada em vários festivais europeus), que reproduzem com perfeição a atmosfera da época, farão os cinéfilos lembrarem bastante do clássico da Nouvelle Vague. O veterano cineasta Philippe Garrel absorveu também algumas características do Cinema mudo, aquele primeiro dos tempos dos irmãos Lumière. A câmera se movimenta pouco, com os atores entrando e saindo de quadro como na perspectiva do teatro. O som ambiente das ruas foi suprimido e o primeiro plano muito utilizado, normalmente longo, assim como os momentos de silêncio (não há trilha sonora, apenas um piano rápido que às vezes invade as cenas), imprimindo uma sensação de intimidade. É como se vivêssemos também naquela república, junto com aqueles jovens estupidamente belos e idealistas, entorpecidos de amor, o que ao mesmo tempo os aproximava e afastava da realidade.

Para os que procuram lazer e diversão, um filme de quase três horas com timing lento talvez não seja a melhor indicação. Mas para aqueles que desejam experimentar o Cinema de arte é uma ótima opção.

Ficha Técnica

Diretor: Philippe Garrel

Elenco: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Mathieu Genet…

Produção: França

Gênero: Drama

Duração: 183min

Publicado originalmente em 01 de dezembro de 2006.

You may also like

O que significa realmente Valar Morghulis?
A grande aposta
Reações facebookianas aos filmes do Oscar
O regresso

Deixe um comentário